Velocidade para um Ironman: Estamos treinando da forma como deveríamos?

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Quando falamos em completar um prova como um Ironman, logo pensamos que precisaremos ter resistência para isso. Mas quando nosso objetivo se transforma em querer melhorar nossos recordes pessoais? Como trabalhar isso? Como treinar a velocidade?

Se levarmos em consideração que a elevação no volume de treinamento dificilmente será possível em esportes de elite e que a melhoria do desempenho só poderá ser atingida pela melhor efetividade do treinamento, então existe a clara necessidade de investigação cuidadosa sobre a natureza da velocidade. O treinamento preciso da velocidade poderá revelar reservas de desempenho em todos os níveis de treinamento.

 

Abordagem Estrutural

Em um mundo comandado pela quantidade, e não qualidade, é muito mais fácil tentar preservar seu atleta com objetivos mais alcançáveis do que lançá-lo ao desafio de dar o próximo passo no desempenho atlético.

Discussões a respeito do programa motor e da estrutura geral associada a velocidade são frequentemente contraditórias e, em geral, muito superficiais.

A velocidade é um dos componentes mais importantes do desempenho esportivo. No entanto, ela não deve ser vista como uma capacidade isolada. A velocidade deve ser considerada como um componente parcial das exigências complexas necessárias para o desempenho esportivo.

Orientações gerais do treinamento de velocidade

O triathlon, comparado as suas modalidades individuais (natação, ciclismo e corrida) é um esporte praticamente recém-nascido em termos de aplicação científica prática. Até hoje vemos muitas discussões a respeito dos treinamentos ideais para as modalidades individuais. Imaginem então, o quanto de estudos ainda devem ser feitos para o triathlon!

Portanto, um método universalmente válido para o treinamento de velocidade dificilmente poderá ser apresentado. Isso se deve ao fato de que o desempenho da velocidade em diferentes esportes é muito complexo ou tecnicamente muito específico. Esse problema também se refere a bibliografia científica, em que via de regra, apresentam-se métodos de treinamento baseados em exemplos de alguns poucos esportes, geralmente as corridas de velocidade no atletismo.

Ao contrário da clássica abordagem de treinamento pelo condicionamento físico para atividades de velocidade, o objetivo deste tipo de treinamento não é o de modificar o sistema morfológico do atleta, mas sim, reorganizar os processos de informação.

A velocidade como capacidade energética

A grande maioria dos textos publicados que visam a melhora da velocidade em um Ironman, se detém a criação de treinamentos baseados exclusivamente em fatores de restauração energética do organismo.

Em bom exemplo dessa relação entre a carga e recuperação em treinamentos específicos de velocidade é a orientação desses treinamentos pelo período de tempo necessário para restaurar os estoques de energia ou mesmo para a normalização da frequência cardíaca. A carga ótima de tempo em um treinamento de velocidade é muitas vezes determinada a partir da perspectiva da disponibilidade do sistema anaeróbico alático.

Portanto, mesmo hoje em dia, o treinamento da velocidade é conduzido principalmente pelo condicionamento físico controlado, o que basicamente determina o desempenho por processos energéticos.

Porém, este texto tentarei explicar uma outra visão do treinamento de velocidade, que fará com que tais métodos de hoje sejam quase contraproducentes.

Velocidade como um fenômeno motor

É cientificamente comprovado que a resistência, a despeito de sua dependência dos processos metabólicos, é determinada predominantemente pelo sistema cardiovascular

E que a força é determinada pelo sistema muscular.

 

 

Na velocidade, esse papel é assumido pelo sistema nervoso.

 

E no caso de provas como Ironman, é de uma certa forma aceitável que a maioria dos atletas não queiram se aventurar em treinamentos que envolvam demandas energéticas mais intensas, pois estes correrão certos riscos de não suportarem essas intensidades até o final do prova. A percepção é a de que o triathlon é somente sobre permanecer no seu estado estável de conforto, no qual somente a capacidade de resistência aeróbica deva ser adquirida.  E que, portanto, de certa forma, a velocidade virá naturalmente.

 

A velocidade como capacidade fundamentalmente Neuromuscular

A abordagem que se apresenta refere-se à velocidade nos esportes como a capacidade de alcançar, por meio das funções do sistema neuromuscular combinada aos processos cognitivo e de máxima força de vontade, a maior velocidade possível de reação e de movimentos A classificação da velocidade foi estruturada de forma fenomenológica para a forma pura ou elementar da velocidade e de forma teórica baseada nas experiências com as formas complexas de velocidade.

Neste artigo, iremos discutir as formas complexas de velocidade, pois é o que diz respeito ao triathlon.

Essas formas de velocidade pertencem a região limítrofe entre a velocidade e a resistência ou a força. As possibilidade de desenvolvê-las são muito menos restritas do que o desenvolvimento das formas puras de velocidade.

A relação entre resistência e velocidade

Os movimentos cíclicos em alta frequência, combinados as contrações musculares intensivas, características da força rápida, impõe grandes exigências não somente sobre a ativação neuromuscular, mas também sobre o metabolismo muscular. Se a proporção de produção anaeróbica lática de energia é alta, então há aumento dos processos de inibição do sistema nervoso central e a regulação dos processos neuromusculares é perturbada.

 

Portanto, através do treinamento neuromuscular, esses movimentos cíclicos, a exemplo: o ciclo da pedalada, podem ser incorporados na habilidade de um atleta sem que haja esses desgastes energéticos no organismo.

 

Treinamento neuromuscular reativo

A velocidade do esforço muscular durante os movimentos funcionais é limitada pelo sistema neuromuscular. Isto significa que a cadeia cinética só se moverá dentro de um intervalo definido de velocidade definida pelo Sistema Nervoso Central (SNC). O sistema neuromuscular deve reagir rapidamente após uma contração excêntrica para produzir uma contração concêntrica e transmitir a força e a aceleração necessárias na direção correta. Treinamento neuromuscular reativo aumenta a excitabilidade do sistema nervoso central, o que melhora o desempenho.

Resistência de velocidade

 

Refere-se ao decréscimo da velocidade relacionado a fadiga em movimentos cíclicos máximos.   A despeito da alta taxa de lactato produzida, essa capacidade é definida como uma forma de velocidade, porque os fatores neurais que regem a velocidade têm maior influência do que o fatores metabólicos que regem a capacidade física resistência.

Uma relação ideal entre tronco e pernas, estabilidade psicológica e a percepção de ritmo pertencem as características gerais do treinamento de velocidade. Uma proporção acima do normal de fibras de contração rápida, boa velocidade de reação e grande força de vontade são características especiais.

Velocidade nunca deve ser retratada como capacidade isolada. Ela é apenas um componente do desempenho esportivo. A aplicação ótima da velocidade não é possível sem um alto padrão técnico. A coordenação intermuscular tem importante papel e atenção especial deve ser dada a formação técnica nesse estágio, pois existe uma relação inversamente proporcional entre a velocidade e a precisão da ação.

O treinamento da frequência de passadas

Adicionalmente ao alto desenvolvimento do sistema nervoso central para melhorar o ciclo de excitação-inibição, o ritmo de coordenação intermuscular também tem papel importante. Um bom comando de forma fina da técnica esportiva, é portanto, pré-requisito para o ensinamento da frequência da passada em alto nível. As mais altas frequências de passadas devem sempre serem perseguidas, se necessário, com um decréscimo da resistência externa.  Entre algumas recomendações das corridas especiais para melhoria da frequência das passadas estão (ex. corridas lançadas com a máxima velocidade em 20-40 metros após uma corrida de abordagem em velocidade predeterminada, in-outs, e corridas especiais de coordenação.)

Recomendações finais

Se começarmos a olhar os treinamentos de velocidade como uma visão mais de aprendizagem motora e eficiência corporal de nossos gestos esportivos, estaremos primeiramente percorrendo um caminho mais seguro, no sentido de manter por maior tempo nossas reservas energéticas.

Não menos importante a isso, estaremos ensinando nosso corpo a saber dissipar a sobrecarga da musculatura primária, e com isso, promover maior participação dos músculos estabilizadores e fixadores, evitando futuras lesões musculares.

E finalmente, conseguiremos alcançar maior desempenho físico, com menos esforço através da economia de movimento criada por essas adaptações musculares!

Referência Bibliográfica:

ELLIOT, B., MESTER, J.  Training in Sport: Applying Sports Science. Wiley, 2000.

DICK Frank W., Sports Training Principles: An Introduction to Sports Science. Bloomsbury, 2014.

 

A respeito de mais informações sobre este conteúdo, favor entrar em contato: commandoslegion.com/ joel@ironmancoachcertified.com